Nota de introdução: Este artigo foi publicado originalmente a 2022-08-03 e é meramente uma síntese minha, alguém que não vive com os problemas que as pessoas trans enfrentam regularmente; por isso, antes de mais nada, encorajo quem se depare com este documento a ler artigos recentes escritos por pessoas LGBTQ sobre a horrível torrente de ódio que têm recebido. Conhecer a experiência e vida de pessoas trans é essencial numa altura em que a existência delas é posta em causa: AS VIDAS TRANS IMPORTAM E A NOSSA EXISTÊNCIA NÃO É UMA OPINIÃO de Jo Rodrigues; De onde vem o que julga saber? Já conversou com pessoas trans e não-binárias? de André Tecedeiro, ou O bullying dos opinion-makers de Ana Aresta. Este texto contou com o input e revisão da @catia43.

As vidas trans importam - contextualização e factos para combater a desinformação

A celeuma generalizada dos comentadores conservadores

O espaço de comentário em Portugal viu-se, recentemente, com um novo alvo nas mãos - a comunidade trans. Esta tendência não é particularmente nova: tal como muitas tendências conservadoras em Portugal, foi importada de sítios como os EUA e UK com alguns anos ou meses de atraso. A parte curiosa é que Portugal não tem propriamente os seus casos de ultraje - todos os casos de ultraje são importados. Por esta razão, os opinion makers em Portugal ficam presos num mundo à parte, a manufacturar controvérsia para um povo que, na sua maioria, não terá nunca visto ou conhecido alguém trans. Não é por acaso que o discurso “antigénero” tem crescido nos últimos anos.

A cavalgar esta tendência e aliados a uma sede de popularidade, vários comentadores conservadores fizeram o desfavor de contribuir para um debate que, em termos práticos, não lhes diz grande respeito. Desde comediantes falhados/empresários abusivos como José Diogo Quintela ou Tiago Dores até transfóbicas e homofóbicas a tempo inteiro como Maria Helena Costa, passando pelos tudólogos do costume como Henrique Raposo ou até mesmo José Pacheco Pereira. A verdade é que, em grande parte, estes artigos baseiam-se em rumores elevados a facto ou em mentiras e propaganda transfóbica. Estas diatribes têm intenções claras - por um lado, a criação de um bicho papão a partir da comunidade trans sem que grande parte dos portugueses perceba muito bem do que se trata. Por outro lado, a vitimização dos colunistas (um grupo quase exclusivamente composto por homens brancos, cis e heterossexuais) quando são confrontados por fazerem afirmações transfóbicas e denunciação de uma suposta “cancel culture” que parece nunca funcionar. Talvez um exemplo claro desta tendência pós-verídica seja o de Clara Ferreira Alves ou João Miguel Tavares, que usam os múltiplos espaços de comentário que têm para declarar que estão a ser cancelados. Mas estas considerações sobre a “cancel culture” são apenas divagações da minha parte - o foco deste texto é outro.

A manufactura da controvérsia

Apesar de ser importante perceber de onde vem este discurso transfóbico, o meu interesse é meramente o de refutar, com análises e dados empíricos, as mentiras propagadas sobre a comunidade trans. Nas próximas secções, os títulos referem-se aos mitos e não a opiniões que eu tenha; apenas quero nomear claramente o objecto da crítica antes de proceder a desmantelá-lo.

“O género é idêntico ao sexo/binário/definido à nascença e ser trans é um desvio da normalidade”

Este mito é um conjunto de mitos - o da equivalência entre género e sexo, o da binarização do género e do sexo, e a do género enquanto um monolito definido à nascença. É importante perceber primeiro o que é o género e sexo, dois conceitos diferentes que interagem ao longo das nossas vidas.

O sexo é, de forma simples, o conjunto de características genéticas, hormonais, gonádicas e genitais que permitem classificar indivíduos como “mulher”, “homem” ou pessoas com diferenças no desenvolvimento sexual. O género é tipicamente considerado o obverso social do sexo - por outras palavras, é a maneira como certas características (de masculinidade e feminidade) são manifestadas no dia-a-dia para e com a sociedade. Como tal, não há género - sejam papéis de género ou identidade de género - fora da sociedade em que estamos inseridos. Daí o género ser considerado uma construção social - um fenómeno que emerge não do indivíduo mas com a sociedade e se manifesta através de indivíduos. Outros exemplos de construções sociais são a moda (tendências sasonais que decretam o vestuário e calçado que são populares) ou a nação/nacionalidade (uma união de indivíduos baseada em geopolítica e uma série de traços culturais). O facto de estas características não serem apenas ou puramente intrínsecas ao indivíduo não significa que não existam - apenas quer dizer que a sua existência é indissociável da sociedade.

Podemos também transpor este conceito para os papeis que a sociedade espera de indivíduos de diferentes géneros (isto não constituem opiniões minhas; apenas reflito algumas expectativas sociais) - até há poucos anos a ideia de que a mulher devia ficar em casa a cuidar dos filhos era relativamente prevalente e continua a ter alguma prevalência nos dias de hoje. De forma semelhante, é esperado que os homens detenham um maior poder dentro do lar e na regência de estados ou nações. Para uma sociedade liberal e meritocrata (como o Ocidente gosta de se retratar) a reversão destas tendências seria de maior importância visto que, historicamente, estes papéis levaram a desigualdades que não são explicadas pelo desempenho individual de cada pessoa. No entanto, não vemos isto a acontecer a um ritmo considerável: muita gente acredita que não há necessidade de mudança, que certos aspectos da mudança pertencem a uma dimensão na qual a história - e qualquer forma de progresso - não podem tocar. No entanto, qualquer construção social é móvel: a moda mudou ao longo de gerações, tal como a maneira de exprimir a nacionalidade portuguesa ou até mesmo os papéis de género e, consequentemente, aquilo que é o género.

Aqui está aquele que é o ponto de contenção para o conservadorismo neoliberal: na sua maneira típica (“eu não sou transfóbico mas…”), o conservador evita ao máximo desvios de qualquer status quo; o neoliberal vê questões como o género, a raça, a classe ou o mérito (para nomear alguns) como intrínsecas ao indivíduo e isoladas da sociedade. Disto surge a conclusão lógica: desvios do normal não passam de vontades individuais que em nada devem motivar mudanças no status quo social.

Esta corrente de pensamente quer-nos fazer acreditar que ser trans é uma espécie de produto do final dos séculos XX e XXI. Contudo, e apesar da palavra “transgénero” ser recente, a identidade da pessoa trans não o é - foram encontradas campas com restos humanos com fisionomia masculina mas roupa feminina com mais de 4.000 anos; há representações pictoriais de um “terceiro género” - uma pessoa com seios femininos e genitais masculinos - que podem ter até 9.000 anos. A primeira operação de mudança de sexo ocorreu no início do século XX. Ao longo dos anos 60 e 70 houve inúmeras demonstrações pelos direitos das pessoas trans. As pessoas trans não são uma espécie de produto do “pós-modernismo” como muitos comentadores conservadores insistem; são pessoas como quaisquer outras, com uma identidade de género diferente da do sexo com que nasceram - não são nem podem ser armas de arremesso político e demagógico.

“O sexo é binário”

O sexo é tipicamente concebido como algo binário. No entanto, pessoas com diferenças no desenvolvimento sexual (por vezes designadas de pessoas intersexo) criam divergências importantes naquilo que é o carácter binário do sexo. Portanto, o sexo tal como o género, não é binário. Há inúmeras condições - como diferenças nos níveis hormonais e mutações em genes ou cromossomas específicos que provocam desvios do tradicional binário entre homem e mulher. Algumas estimativas mais liberais apontam para que 1.7% de todas as pessoas sejam intersexo, mas estima-se que 0.5% de toda a população (1 em 200 pessoas) tenha variações sexuais ou reprodutivas identificáveis a nível clínico. Para complicar ainda mais a suposta binariedade, estudos que quantificaram a maneira como os cérebros humanos funcionavam entre homens e mulheres cis e pessoas trans mostraram que o cérebro de pessoas trans é diferente daquele observado em pessoas cis, assumindo tipicamente um fenótipo médio entre o homem e a mulher.

Há portanto evidências fortes de que o sexo se manifesta num espectro. Mas porque é que tanta gente insiste no oposto? O argumento de muita gente é que não existem pessoas intersexo em números suficientes para justificar o desuso do tradicional binário; no entanto, uma mulher com mais de 1,80m é, estatisticamente, mais incomum do que uma pessoa intersexo, e no entanto continuamos a considerar possível que haja mulheres dessa altura. Diz-se que no mundo há entre 1% e 2% de pessoas ruivas, mas ninguém diz que a raridade relativa das pessoas ruivas é insuficiente para que seja considerada uma cor de cabelo por si só; porque há-de o sexo ser diferente? É difícil encontrar uma justificação plausível que motive a exclusividade do sexo neste aspecto que não parta de algum viés pessoal ou social.

“Pessoas trans têm uma maior taxa de suicídio do que o resto da população”

Esta afirmação não está necessariamente errada, mas a sua descontextualização é perigosa - comparar pessoas trans com o resto da população neste aspecto seria como dizer “pessoas que são tratadas para cancro da próstata com terapia radiofarmacêutica têm uma taxa de mortalidade maior do que o resto da população”; é uma comparação absurda! Não podemos avaliar a eficácia de um procedimento médico ao compará-lo com o resto da população: a comparação tem de ser feita entre pessoas na mesma posição. Há contudo, alguns problemas associados a estes estudos: são difíceis de fazer em grande escala, e podem acabar por não conseguir distinguir que outros factores (i.e. doença mental prévia) levam a ideações ou tentativas de suicídio. Como demonstrado numa meta-análise recente, há de facto algum viés potencial nestes estudos; contudo, esse viés não afecta as principais conclusões: as pessoas trans vivem sob maior risco de suicídio.

Para discutirmos este tópico, temos de estabelecer uma distinção entre três intervenções: afirmação de género (AG), operações de AG (OAG) e terapia hormonal de AG (THAG). A AG é um conceito lato que visa a que as pessoas se sintam mais próximas do género com que se identificam e inclui diferentes formas de afirmar (ou validar) o género de alguém, como intervenções sociais (i.e. referirem-se a alguém pelos pronomes que preferem), legais (mudarem o género legalmente) ou médicas (OAG/THAG). As OAG são intervenções cirúrgicas como mastectomias (redução das mamas), cirurgias genitais, ou faciais/corporais. Finalmente as THAG consistem na administração de hormonas para AG; este processo é largamente reversível, particularmente em idades mais jovens. Aqui, também podemos definir disforia e euforia de género: enquanto que a primeira é o sofrimento associado às diferenças entre o género com que alguém se identifica e o seu aspecto físico, a euforia de género é o sentimento de felicidade ou alívio sentido quando há uma correspondência entre ambos.

Posto isto, vamos ver o que diz a literatura científica sobre ideações suicidas em pessoas trans quando recebem cuidados de AG:

Este facto - receber tratamento que afirme o género de pessoas trans - é fundamental para contrariar tendências suicidas na comunidade trans: combatê-lo é tomar passos activos contra a comunidade trans.

Há ainda outro factor importante aqui - porque é que o risco de suicídio, na comunidade trans, é mais elevado? Para entendermos isto é necessário considerar as potenciais causas da depressão. Apesar da pressão social e descriminação sofridas por terem uma identidade que muita gente não reconhece como normal ser evidente, há também um vasto corpo literário que tenta compreender e quantificar estas causas. Realço aqui que a experiência vivida de cada pessoa - trans ou não - constitui um testemunho forte que não deve ser negado.

Postos estes factores em evidência, há algo claro - apesar da experiência de viver num corpo que não corresponde à sua identidade ser um factor que, por si só, contribui para uma saúde mental mais frágil, o apoio social e redes de apoio estáveis, bem como terapias de afirmaçao de género contribuem para melhorias significativas na saúde mental de pessoas trans. Numa comunidade tão vulnerável - 20% da população trans tentou suicidar-se de acordo com um relatório de The Trevor Project, sendo este número ainda mais alto quando consideramos pessoas trans mais jovens. Relatórios como aqueles de The Trevor Project mostram o quão fulcral é permitir que pessoas trans possam exprimir o seu género livremente, bem como a importância de um ambiente familiar acolhedor.

“Pessoas trans arrependem-se quando mudam de sexo”

Esta é, talvez, das mais descuidadas das afirmações porque cai com a menor das análises - este mito afirma que a transição de género ou outros cuidados médicos de afirmação de género não deviam acontecer porque aqueles que passam por eles muitas vezes arrependem-se. Vejamos então o que diz a literatura sobre este assunto, não sem antes definirmos “destransição”. Destransição é uma reversão completa ou parcial de um qualquer cuidado de afirmação de género - isto é contrário a uma “transição”, em que há cuidados de afirmação de género. Para uma versão em inglês de grande parte deste ponto recomendo fortemente a consulta deste sítio web. Em baixo eu limito-me a completar minimamente algumas das estatísticas nele e a acrescentar alguns estudos relevantes.

  • Um estudo no Reino Unido mostrou que apenas 0.47% das pessoas (16 em 3.398 pessoas) se mostraram arrependidos por terem feito uma transição. Contudo, nem todos se deveram a um erro na identidade de género assumida pelos mesmos: factores sociais e complicações físicas (possivelmente devido a um processo de transição pobremente executada). Os autores afirmam que factores sociais representam a causa de maioria dos processoes de destransição.
  • Um estudo feito nos EUA mostrou que há uma taxa de aproximadamente 8% de destransição em pessoas trans. Contudo, mais uma vez, esta análise seria pobre se nos ficássemos por este número - uma análise mais aprofundada mostra-nos que mais de 60% desses 8% (5%) fê-lo apenas temporariamente. Mais importante é o facto de 31% das pessoas terem feito uma destransição porque sofreram descriminação ou assédio e 29% por ter tido maiores problemas a encontrar emprego. Entre 18% e 36% fizeram uma destransição porque foram pressionados a fazê-lo pela sua mãe ou pai, por parceiros românticos, ou de outros membros da sua família. Apenas 5% dos 8% iniciais (0.4%) decidiu fazer uma destransição por sentir que a transição não era para essas pessoas.
  • Na Suécia, foram registrados 15 casos de destransição (2.2% das transições) entre 1960 e 2010. Uma conclusão interessante, observada pelos investigadores, foi a de que as taxas de destransição diminuiram com o tempo - enquanto que 10 destransições foram registradas entre 1960 e 1980, apenas 5 foram registradas nas 3 décadas seguintes.
  • Um estudo holandês mostra algo que confirma o que foi constatado até agora - as taxas de arrependimento ou destransição observadas numa clínica em Amesterdão entre 1972 e 2015 (6.793 pessoas no total) são de, aproximadamente, 0.6% para mulheres trans e 0.3% para homens trans.
  • Noutro estudo dos EUA, foi registrada uma prevalência de 13.1% nas taxas de destransição entre pessoas trans. Contudo, destes 13.1%, menos de 20% (2.3% das pessoas trans) reportaram razões “internas” como não se sentirem preparades para fazer a transição ou incertezas quanto à identidade de género; os restantes 82.5% deram citam pelo menos um factor externo, nomeadamente pressões sociais, parentais e familiares, violência sexual ou falta de acesso a tratamentos hormonais. Mesmo que esses 13.1% fossem por conflito interno, seriam comparáveis com a taxa de arrependimento de 14.4% associada a cirurgias no geral.
  • Num estudo que sondou 220 jovens trans a quem foi administrada THAG, (apenas 4% se arrependeram de terem tomado bloqueadores de puberdade ou hormonas de afirmação de género)[https://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/fullarticle/2825195], e menos de 2% tinham parado todo e qualquer cuidado de AG.

Quando analisadas de perto, estas supostas taxas de arrependimento não se aguentam em pé. Porém, este é um mito recurrente, com uma utilidade muito simples - pretende apenas caracterizar as pessoas trans como indecisas ou como tendo sido apanhadas numa moda ou tendência. A intenção última é a de enquadrar as pessoas trans como um produto de guerras culturais e ideológicas e não como pessoas cuja identidade é descrita há milhares de anos. Para além disso, esta afirmação (a identidade trans como uma moda) já foi desprovada - para tentarem compreender se havia alguma forma de “contágio social” relativo a transições (uma maior discussão sobre e prevalência de pessoas trans levaria a um maior número de pessoas a identificarem-se como trans), um grupo de investigadores comparou o número relativo de pessoas trans ao longo dos últimos anos. Os resultados são claros - este número tem vindo a decrescer! É portanto absurdo - para além de desumano - falar de pessoas trans como se fossem meras vítimas de uma moda ou tendência.

“Andam a operar crianças para mudarem de género”

Este é provavelmente um dos tópicos mais contenciosos. Vamos começar por apresentar o que é feito enquanto prática clínica para desmentir os medos baseados em operações ou outros procedimentos médicos feitos sem qualquer avaliação. Há algumas alterações sociais (mudar o corte de cabelo, a roupa, a maneira como as pessoas à volta da criança se referem a ela, os pronomes que ela usa) que podem ser implementadas pela família se assim o entender, tudo com a devida autorização e para benefício da criança (isto pode também acontecer após recomendação médica). Há também medidas legais (como a alteração do género e nome nos documentos legais) que podem ser implementadas para adolescentes; estas podem contudo ser eventualmente proibidas pelos partidos de direita em Portugal.

Para além destes, há ainda a possibilidade de intervenções médicas como bloqueadores de puberdade, THAG, e OAG, sendo que cada um tem diferentes níveis de reversibilidade. O que se segue a seguir sobre cada um destes e a sua aplicação em crianças, pré-adolescentes e adolescentes é retirado das guias da Endocrine Society, da World Professional Association for Transgender Health, e da American Academy of Pediatrics, garantindo uma cobertura plena entre diferentes tipos de profissionais médicos. Em todas as guias, é pedido que os médicos tenham conhecimento amplo no tratamento de crianças e jovens trans, de forma a garantir que o cuidado que estão a administrar é bem feito.

Os bloqueadores de puberdade são completamente reversíveis. Como é que sabemos? Bem, eles são usados há décadas para casos de puberdade precoce. Para adolescentes que trans, eles são recomendados a partir das primeiras mudanças provocadas pela puberdade, com avaliações frequentes. A THAG - reversível a não ser o engrossamento da voz (com testosterona) ou o desenvolvimento mamário (no caso do estrogénio) - em adolescentes é recomendada após uma avaliação multi-disciplinar e, a não ser que os profissionais médicos considerem que há necessidade, apenas a partir dos 16 anos. As OAG (irreversível), finalmente, são recomendadas apenas após os 18 anos de idade e, mais uma vez, após uma avaliação prolongada da pessoa trans por profissionais médicos. Podem ter reparado que muito poucos destes cuidados são para crianças: a verdade é que estas associações não recomendam intervenções médicas em crianças (a não ser em casos extremos), recomendando apenas a transição social. Como podem ver não há grande chance de haver um número enorme de crianças a serem operadas para mudança de género, como confirmado num estudo de 2024 que sondou os registos de seguro de 22,827,194 nos EUA. Nele, as taxas são incrivelmente baixas: foram encontradas 2.1 OAG feitas em pessoas entre os 15 e os 17 anos por 100 000 menores, 0.1 OAG feitas em pessoas entre os 13 e os 14 anos por 100,000 menores, e 0 (sim, zero) feitas em menores com menos de 12 anos.

Finalmente, há outra constatação associada a esta que ouvimos frequentemente: de que as crianças se vão arrepender da transição, seja ela qual for. A ideia de que as crianças são fantasiosas com a sua identidade não é nova, mas é importante reconhecer que uma transição de género, como vimos, é sempre adequadamente avaliada. É perfeitamente normal e esperado que haja experimentação com diversidade de género em crianças, largamente por o mesmo ser determinado socialmente. Ainda assim, este mito também não tem muita evidência a seu favor: 5 anos depois de uma transição social, apenas 7.3% das crianças tinham preferido pará-la.

“Os homens dizem que são mulheres para irem para espaços femininos aproveitar-se de mulheres”

Esta afirmação parte de uma longa tradição europeia de usar uma sátira do feminismo para criar medo de um outro - quem não se lembra de ouvir comentadores a motivarem islamofobia com base numa ideia de mau tratamento da mulher? Nos EUA, Trump caracterizou imigrantes mexicanos como violadores, pretendendo usar a mulher como um adereço para motivar pessoas a serem contra a imigração de mexicanos para os EUA.

Desta vez, o alvo da generalização é outro: a mulher trans, que, diz o mito, é apenas um homem vestido de mulher que se quer aproveitar de mulheres indefesas em espaços femininos como casas de banho. Mais uma vez vemos a preocupação pela mulher a entrar em cena, mas apenas apenas acidentalmente - serve apenas para motivar descriminação (não quero com isto dizer que devamos evitar preocupações com a mulher ou que o papel do feminismo é irrelevante; apenas que a “defesa” da mulher nestas demagogias é um ultraje argumentativo e não concerne de todo a mulher).

Para além disso - e não que isso possa motivar possíveis casos de assédio sexual ou violação - pessoas trans estão em maior risco de sofrerem agressões em casas de banho do que pessoas cis. Entre crianças e jovens, há dados que apontam para um maior número de vítimas de assédio sexual trans quando estas pessoas são impedidas de usar as casas de banho do género com que se identificam, sendo este número superior às taxas de assédio sexual em casas de banho observadas na população geral. 60% das pessoas trans evita usar casas de banho públicas por já terem tido más experiências associadas à sua identidade quando as frequentavam. Num autêntico caso de bizarria, um homem trans foi forçado a usar a casa de banho das mulheres, tendo depois sido agredido por o fazer. Noutros casos, a identidade sexual de pessoas trans foi usada para levantar cruzadas contra as pessoas trans no geral, sem haver qualquer ligação entre identidade e assédio sexual. É importante dizer que as pessoas trans não são incapazes de cometer assédio sexual - há casos reportados e ignorá-los seria apenas participar numa negação de factos inconsequente. Contudo, não há evidência que nos leve a acreditar que o fazem com a mesma ou maior frequência do que o resto da população, sendo ainda vítimas (mais) frequentes de assédio e abuso sexual. Finalmente, devemos relembrar que 8 em cada 10 violações são cometidas por conhecidos da vítima e 33% de todas as violações são cometidas pelo parceiro da vítima e que 67% das violações são cometidas na casa da vítima ou na casa de um familiar. Se aqueles que estão “preocupados com as mulheres” estivessem verdadeiramente preocupados com as mulheres com certeza criariam mais e melhores mecanismos de apoio para vítimas em vez de perseguirem raviosamente uma minoria marginalizada.

Conclusão

Alguns dos grandes mitos por detrás da transfobia são meros espantalhos, convenientemente levantados para serem derrotados por falsos cavaleiros. Outros são mentiras danosas que aumentam a agressão sofrida por uma comunidade já vulnerável. É importante combatê-los empiricamente de forma a revelar o viés pessoal de muitos destes comentadores. É frequente ver alguém a usar a autoridade da palavra “ciência” para dar mais força a argumentos pobres e insuficientes. Este pequeno artigo pretende apenas desmascarar quem o faz - a transfobia que assenta em mitos como aqueles apresentados em cima não parte da ignorância mas sim do ódio.

Compreendo também que haja pessoas que sejam também movidas por medo ou receio - afinal de contas, na ausência de vozes trans em espaços públicos, é normal que se assuma que a ameaça pintada por comentadores conservadores seja real. Este artigo é também para essas pessoas, para que possam perceber que os supostos “factos” destes comentadores são um produto de mentes pequenas que não suportam qualquer tipo de mudança.

Fontes usadas (por tópico)

“O género é idêntico ao sexo/binário/definido à nascença e ser trans é um desvio da normalidade”

  1. The misuses of “biological sex” - The Lancet
  2. Gender - World Health Organization
  3. Timeline of transgender history - Wikipedia

“Pessoas trans têm uma maior taxa de suicídio do que o resto da população”

  1. Prevalence of suicidal thoughts and attempts in the transgender population of the world: a systematic review and meta-analysis - Annals of General Psychiatry
  2. Association Between Gender-Affirming Surgeries and Mental Health Outcomes - JAMA Surgery
  3. Association of Gender-Affirming Hormone Therapy With Depression, Thoughts of Suicide, and Attempted Suicide Among Transgender and Nonbinary Youth - Journal of Adolescent Health
  4. Mental Health Outcomes in Transgender and Nonbinary Youths Receiving Gender-Affirming Care - JAMA Network Open
  5. Access to gender-affirming hormones during adolescence and mental health outcomes among transgender adults - PLOS One
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  7. Changes in Suicidality among Transgender Adolescents Following Hormone Therapy: An Extended Study - The Journal of Pediatrics
  8. Factors associated with suicide attempts among Australian transgender adults - BMC Psychiatry
  9. Levels of depression in transgender people and its predictors: Results of a large matched control study with transgender people accessing clinical services - Journal of Affective Disorders
  10. National Survey on LGBTQ Youth Mental Health 2019 - The Trevor Project
  11. Suicidality Among Transgender Youth: Elucidating the Role of Interpersonal Risk Factors - Journal of Interpersonal Violence
  12. The Trevor Project National Survey, Supporting Transgender & Nonbinary Youth section - The Trevor Project
  13. State-level anti-transgender laws increase past-year suicide attempts among transgender and non-binary young people in the USA - The Trevor Project

“Pessoas trans arrependem-se quando mudam de sexo”

  1. How Many People Detransition? - A Guide to Transgender Regrets - GenderGP
  2. Detransition rates in a national UK Gender Identity Clinic - 3rd biennal EPATH Conference Inside Matters. On Law, Ethics and Religion
  3. The Report of the 2015 U.S. Transgender Survey - National Center for Transgender Equality
  4. An Analysis of All Applications for Sex Reassignment Surgery in Sweden, 1960-2010: Prevalence, Incidence, and Regrets - Archives of Sexual Behavior
  5. The Amsterdam Cohort of Gender Dysphoria Study (1972–2015): Trends in Prevalence, Treatment, and Regrets Get access - The Journal of Sexual Medicine
  6. New Study Shows Discrimination, Stigma, and Family Pressure Drive “Detransition” Among Transgender People - Fenway Health
  7. Postoperative Regret Among Transgender and Gender-Diverse Recipients of Gender-Affirming Surgery - JAMA Surgery
  8. Levels of Satisfaction and Regret With Gender-Affirming Medical Care in Adolescence - JAMA Pediatrics
  9. Transgender History - Wikipedia
  10. Sex Assigned at Birth Ratio Among Transgender and Gender Diverse Adolescents in the United States - Pediatrics

“Andam a operar crianças para mudarem de género”

  1. Comunicado conjunto - A nossa autonomia não é debatível - ILGA Portugal
  2. Endocrine Treatment of Gender-Dysphoric/Gender-Incongruent Persons: An Endocrine Society* Clinical Practice Guideline - The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism
  3. Standards of Care for the Health of Transgender and Gender Diverse People, Version 8 - International Journal of Transgender Health
  4. Ensuring Comprehensive Care and Support for Transgender and Gender-Diverse Children and Adolescents - Pediatrics
  5. Puberty blockers have been used safely for decades - why is NHS England citing a lack of evidence?
  6. Prevalence of Gender-Affirming Surgical Procedures Among Minors and Adults in the US - JAMA Network Open
  7. Australian standards of care and treatment guidelines for transgender and gender diverse children and adolescents - The Medical Journal of Australia
  8. Gender Identity 5 Years After Social Transition Free - Pediatrics

“Os homens dizem que são mulheres para irem para espaços femininos aproveitar-se de mulheres”

  1. 15 Experts Debunk Right-Wing Transgender Bathroom Myth - Media Matters for America
  2. Gender Identity Nondiscrimination Laws in Public Accommodations: a Review of Evidence Regarding Safety and Privacy in Public Restrooms, Locker Rooms, and Changing Rooms - Sexuality Research and Social Policy
  3. Gendered Restrooms and Minority Stress - Williams Institute
  4. Transgender teens with restricted bathroom access at higher risk of sexual assault - Harvard T.H. Chan School of Public Health
  5. U.S. transgender people harassed in public restrooms: landmark survey - Reuters
  6. Trans Man Advised to Use Women’s Restroom Then Beaten Up and Arrested - Newsweek
  7. Conservatives Wrongly Portrayed Sexual Assault as a Transgender Issue - Reason
  8. Statistics: Perpetrators of Sexual Violence - RAINN
  9. Facts & Statistics: The Scope of the Problem - RAINN